Ceilândia: Berço do Rap nacional

Publicada em: 09/12/2012

A 26 km do centro da capital Brasília, Ceilândia é a região administrativa com a maior população do Distrito Federal. Cerca de 600 mil habitantes dão a cara da cidade que cresceu rápido e hoje mostra sua própria personalidade. Uma delas é ser o berço do rap no Planalto Central: local onde surgiram grupos como Câmbio Negro e Filosofia Negra. 

Quando a cidade surgiu em 1971, pouco ou quase nenhum lazer exista para a população que começava ter suas próprias características. Indignados com a falta de cultura, escolas, hospitais e serviços básicos, os jovens revolveram usar o rap para protestar. Mas antes é preciso entender como tudo começou. 

Ceilândia surgiu em março de 1971 para conter e afastar do centro de Brasília a formação de favelas. Até o final da década de 1980, a cidade era considerada uma grande "favela" de Taguatinga, cidade vizinha. A sigla CEI, que significa Campanha de Erradicação de Invasões, com a palavra "lândia" que significa cidade, formaram o nome da comunidade que viria se tornar uma das mais importantes do DF. Pouco tempo depois, Ceilândia passou a ser a IX Região Administrativa do Distrito Federal. 

Hoje, 41 anos depois de sua criação, Ceilândia tem vida e cultura próprias. A cultura de gueto e do hip hop ganhou força e mostrou que na periferia também se faz arte. No rap, os jovens encontraram uma forma de expressar suas ideias e até reivindicar direitos nem sempre garantidos em uma cidade em formação. 

Alexandre de Jesus Silva, 34 anos, nasceu e cresceu em Ceilândia. Thyaka, como é mais conhecido no movimento rap, é casado e tem um filho de seis anos. Na Ceilândia Norte ele ajudou a fundar o grupo Filosofia Negra, onde compõe e canta o ritmo que segundo ele escolheu para falar de sua rotina. 

— O rap para gente sempre foi o grito de socorro. Uma forma que a periferia encontrou de denunciar a falta de atendimento no hospital, falta de escola de qualidade, a criminalidade que mata nossos filhos que em muitos casos são abraçados pelo mundo das drogas. Aqui na Ceilândia o rap acabou sendo uma forma de cultura que promove a paz usando a realidade como tema das músicas.


Tyaka faz parte de um grupo típico de moradores da Ceilândia com histórias parecidas. Os pais e avós dele vieram para Brasília com a promessa de construir a capital e conseguir moradia. Mas não foi bem isso que aconteceu. Na década de 1970 eles moravam na Vila IAPI no Núcleo Bandeirante, que na época era reduto de nordestinos que vieram construir a capital. Anos depois, a família foi removida para a CEI que mais tarde se tornou a maior região administrativa do DF. 

— Eu me lembro que quando a gente chegou aqui na Ceilândia, tudo era difícil. Eu era criança e nem me importava muito. Anos depois comecei acompanhar meu irmão mais velho nos bailes de rap e comecei a entender os problemas da minha cidade. Hoje faço parte dela e tento por meio do rap mostrar que aqui tem gente de bem e trabalhadora. 

Gilson Costa de Oliveira, 35 anos, ajudou o parceiro Thyaka a fundar o grupo Filosofia Negra. Ele também nasceu e foi criado na no bairro Expansão do Setor O em Ceilândia. Hoje ele é casado e tem três filhos, um deles já canta e escreve rap. Para garantir o sustento da família, Gilson trabalha como vigilante e considera o rap um hobby, que segundo ele deixou de ser entretenimento para ser informação. 

— Ceilândia é berço do rap porque foi aqui que os grupos nasceram. Antes a galera se reunia apenas para se divertir, já que no início de Ceilândia não tinha muita coisa para a juventude. Hoje os grupos tem consciência que o rap não tem só a função de divertir, mas de informar também. 

Atualmente Ceilândia abriga cerca de 100 grupos de rap que estão inseridos no movimento hip hop. Na maioria dos shows, o público costuma ver apresentações de break, grafite e cultura de rua. 

Fama nacional

Outro grupo tradicional de rap que nasceu nas ruas ceilandenses foi o Câmbio Negro. Ele surgiu em 1990 e gravou seu primeiro trabalho, três anos depois, com o título Sub Raça. O sucesso chegou com o segundo disco Diário de um Feto, que vendeu duas mil cópias em 15 dias. 

Câmbio Negro chegou a receber o prêmio Video Music Brasil na categoria melhor grupo. Em 2000, após o vocalista X abandonar a carreira, o grupo encerrou as apresentações. 


O ritmo

A principal característica do rap é o ritmo acelerado que privilegia a letra em forma de discurso com muita informação e pouca melodia. Geralmente as letras retratam a realidade difícil de quem mora na periferia das metrópoles. É muito comum encontrar gírias usadas pelos grupos nas letras das músicas. 

O rap nunca vem sozinho, sempre está atrelado a cultura do hip hop, danças com movimentos rápidos e malabarismos corporais. O break, por exemplo, é um tipo de dança relacionada ao rap que utiliza o cenário urbano para garantir uma estética própria. Além do grafite que expressa o ritmo por meio da imagem nas paredes das grandes cidades. 

No original o termo rap significa rhythm and poetry (ritmo e poesia). Ele surgiu na Jamaica na década de 1960, e não nos Estados Unidos como muitos acreditam. O gênero musical foi levado pelos jamaicanos para os bairros pobres de Nova Iorque no começo da década de 1970.

Fonte: R7DF- 09/09/12

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